segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Olhos do coração

     

       Havia uma paisagem cheia de luz que se materializava para ela. Um mundo novo, sorria bem à sua frente ou era assim que se sentia, como que portadora de uma capacidade nata de sentir felicidade.
       Sozinha, estava completamente à vontade, como se o céu lhe fizesse companhia. Olhando a madrugada com os olhos de uma criança que nunca ficou acordada até mais tarde para desvendar a noite. O céu negro e infinito cada vez mais claro, e as estrelas como pontinhos cintilantes, brilhavam tanto que lhe faziam sorrir, respirava enchendo seus pulmões e soltava o ar aliviada e grata por estar exatamente aonde estava. A lua como que reinava acima dela, linda, apaixonante, milenar.
       Um vesgo de desconforto lhe atingiu de repente:
      "Tudo isso que sinto agora vai passar. Tudo sempre passa. E está tão bom assim, quero sentir todos os dias o mesmo..."
       Porém, mal terminou de pensar nisso, e se deu conta do absurdo, pensando consigo:
      *Que graça teria sentir sempre igual do início ao fim tanto uma fase, quanto um momento da vida? Se por acaso eu viver agora pensando no fim, o que é que vai ser do meio dessa história?
       Bendita é a novidade de cada instante! Passageira e imediata. Tão frágil que só dura o tempo de um trecho, mas que dura o suficiente para o meu regozijo.
       Que passe, que depois sinta que foi vago e vazio, que foi pouco. Que me abandone, que seja! E saia de mim a alegria, a euforia do novo.
       Mas só depois que eu possuir cada instante, depois que eu tenha saboreado cada detalhe e enlouquecido com os extremos que me aprazem.
       Que eu deixe a recém chegada sempre ir, para que outras eminentes venham e se apresentem em seu lugar.  
       Para que eu veja sempre com os olhos que reconhecem, pois viveram, mas se deslumbram como se sempre fosse a primeira vez.*