Entendia muito mais do que era entendida, não sabia se era por isso calada ou se por falta de compreensão foi assim que se tornara. Não importava.
Em seu mundo pouca coisa tinha cor, enxergava a beleza e dela se alimentava e, nela navegava.
Estava sempre rodeada de pessoas, de momentos pelos quais entrava e saía sem se erguer ou cair, como num torpor.
Se comparava a uma vela que queima, uma chama no escuro, que brilha mas não aquece seu observador.
Sabia que com sua estranha maneira, se destacava e, que por esse motivo era ao mesmo tempo rara e bizarra.
Sabia que algumas pessoas a adoravam e outras a julgavam.
Se comprazia na escrita mais do que com a fala e, com gestos e olhares mais do que com palavras. Vivia com o olhar e com seu corpo enlouquecia a quem ousasse o tocar.
Era assim a jovem Érica, que sonhava sem demonstrar, e que amava como quem canta uma melodia linda. Muitas vezes acompanhada de um instrumento, que a fazia cantar e dançar, mas que em meio a dança e a sincronia, com sua voz não fazia par.
Como um girassol, que se move sempre em direção a luz. Mais ainda como a rosa, cor de sangue, linda, delicada e por seus espinhos, solitária.
Contudo, não era amarga e nem mesmo grossa em suas palavras, era doce e escutava, sempre com ar de interessada. Era sincera sem medir, sem persuadir e nem induzir a nada.
Abraçava a quem sabia onde quer estar, assim como também sabia onde pisava.
Se doava e não esperava nada em troca, mas também, não garantia de nenhuma forma, a sua volta.
Acima de tudo amava a vida, com suas pedras e profundezas, como já disse ela sabia ver beleza. Sabia sentir o vento ao correr e seu coração a disparar. Sabia rodar e dançar em meio aos passarinhos, e ao olhar pro céu quase podia voar, se perdia entre as estrelas.
Não sabia nadar, só sabia mergulhar, era seu jeito de ser com as coisas.
Como lhes transmiti havia a chama de uma alma a brilhar eterna. Ao sabor do vento ela dançava, para lá e para cá, sempre viva e brilhante mas sem meios de sozinha incendiar.
A essa história só há dois fins, que vou contar e deixar-lhes pensar.
A cera dessa vela/alma irá queimar, porque o tempo é uma certeza que não posso ultrapassar. E ali toda desfeita e derretida, a doce chama vai se apagar.
Mas antes disso acontecer, vou mudar seu destino, eu sou ela e ela é eu, eu que escrevo seu caminho.
Sobre Érika havia algo, que talvez até mesmo ela deixasse passar, havia o fogo e a luz própria. E um espírito capaz de acreditar.
Com sua fé e sua força, a mágica começou a gerar. Num clarão imenso libertou-se da cera e de seus espinhos de rosa.
Passou a brilhar sozinha, toda livre, sem instrumentos que tocam. Seu canto era lindo, comovente, fez chorar de alegria toda gente, que de longe a escutava.
Se voltavam para ela, como girassóis que buscam por sua estrela. Aquela que enternece seus olhos à noite e que os ofusca durante o dia.
Mas Érika agora, anjo, fada, bruxa, maga. Alçou voo para sua verdadeira casa.
Quem a viu por toda vida não a reconheceu, mas quem a viu voar aos céus, dela jamais se esqueceu.
E como é, ser Érika hoje, só quem se liberta pode vivenciar. Eu, você, você e eu, também somos chama/alma a brilhar.


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